O mundo cabia entre suas mãos e meu coração


Às vezes, quando o vento sopra de um jeito especial, trago você de volta. Não em corpo, mas em essência. Aquele cheiro de canela que impregnava a cozinha, os lençóis passados a ferro, o modo como seus dedos calejados acariciavam meu rosto antes de dormir. Tudo volta, mesmo que por um instante. E então me perco na memória daqueles dias em que o mundo cabia no espaço entre suas mãos e meu coração.
Lembro das manhãs de domingo, quando a luz entrava pela janela e desenhava sombras no chão. Você me chamava para ajudar a sovar o pão, e eu fingia que sabia fazer, só para ouvir sua risada. Era como música. Agora, quando tento reproduzir suas receitas, falta sempre algo — um ingrediente invisível, um segredo que só você conhecia. Até o açúcar parece mais amargo sem seu toque.
Há dias em que a dor é tão fina que quase não se nota. Outros, ela me alcança como uma onda, arrastando-me para o fundo. Sinto falta do seu colo, daquela paz que só existia quando você me envolvia em seus braços e sussurrava histórias que o tempo não apagou. Você era meu porto seguro, meu lugar no mundo. E agora, sem você, até o silêncio parece mais pesado.
Se pudesse, voltaria no tempo só para guardar cada detalhe: o som da sua voz, o brilho nos seus olhos quando me via, o jeito como transformava o ordinário em extraordinário. Mas sei que você segue aqui, em cada gesto que repito, em cada lição que carrego. E, mesmo que não possa mais te abraçar, encontro você nas pequenas coisas — no cheiro da chuva, no calor do sol, no sussurro das folhas.
Com amor, Sua neta.

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