Aprendi a ser forte, mas não para viver sem você
Pai, hoje o vento trouxe seu cheiro. Aquele mesmo, de tabaco e café, que grudava nas roupas e na memória. Sinto falta do barulho das suas botas no assoalho, daquele passo firme que anunciava segurança antes mesmo de você abrir a porta. A casa agora é silêncio, um vazio que dói nos ossos, como um inverno que nunca acaba. Lembro dos seus conselhos, daquela voz rouca que cortava a escuridão das minhas dúvidas. Você me ensinou a ser forte, mas não me preparou para a fraqueza de viver sem você.
Às vezes, paro no meio do dia, olho pro céu e pergunto se você vê o homem que me tornei. Queria que soubesse que carrego suas lições como um escudo, que seu orgulho ainda me aquece nos dias frios. Mas há momentos em que a saudade é um punho fechado no peito, apertando até faltar o ar. Lembro do seu riso, daquele som grave que ecoava pela sala, e me perco em pensamentos. Como seria ouvir você de novo? Como seria ter mais um dia, só um, para dizer tudo que ficou engasgado na garganta?
Os anos passam, mas a dor não envelhece. Ela se transforma, vira uma cicatriz que lateja quando chove. Aprendi a conviver com ela, mas nunca a ignorar. Você está em cada gesto meu, nas minhas mãos calejadas, no jeito duro de lidar com as coisas. Até no silêncio, que agora é meu companheiro, vejo seu reflexo. Você me disse uma vez que a vida é feita de partidas, mas não me avisou que algumas doem mais que outras.
Sei que você não gostaria de me ver assim, parado no tempo, revirando lembranças. Mas hoje, só hoje, deixo a máscura cair. Escrevo essas palavras como quem despeja um fardo, sabendo que você, em algum lugar, ainda me ouve. Obrigado por ter sido meu farol, meu porto seguro, meu herói sem capa. Prometo honrar seu nome, mesmo quando o peso do mundo tentar me dobrar. Até que nossos caminhos se cruzem novamente.
Seu Filho
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