O mundo cabia no quintal de casa e a tarde durava uma eternidade
Lembro como se fosse ontem daqueles dias sem fim, quando o mundo cabia no quintal de casa e a tarde durava uma eternidade. Você sempre me puxava pelas mãos, com aquela força que só os mais velhos têm, e eu corria atrás, tropeçando mas rindo. O cheiro de terra molhada depois da chuva, o barulho dos nossos passos na grama, as histórias que inventávamos para justificar cada arranhão no joelho — tudo isso ainda vive aqui, dentro de mim, como um fogo que não se apaga.
Agora, a distância pesa mais do que eu imaginava. As paredes deste quarto ecoam um silêncio que nunca soube existir quando você estava por perto. Até os problemas mais bobos, aqueles que a gente resolvia com um soco no ombro e um sorriso, parecem gigantes quando tenho que enfrentá-los sozinho. Sinto falta da sua voz, daquele jeito direto de cortar qualquer drama, como se tudo na vida fosse simples e a gente só precisasse de coragem para encarar.
Às vezes, pego no sono pensando nas nossas brigas — lembra daquela vez que quebramos a janela da vizinha e ficamos uma semana sem falar? Hoje, até isso me faz rir. É estranho como o tempo transforma até a raiva em algo que dói de tanto amor. Queria poder ligar agora e ouvir você dizer, como sempre fazia, que “isso também vai passar”. Mas sei que você está construindo sua vida, e eu a minha, mesmo que doa um pouco mais do que eu gostaria de admitir.
Escrevo esta carta não para te prender, mas para que você saiba: não importa quantos quilômetros nos separem, levo você comigo em cada passo. Nosso sangue é o mesmo, e essa ligação não se quebra com distância ou tempo. Um dia, quando a vida nos trouxer de volta ao mesmo lugar, vamos sentar no mesmo degrau de sempre, com os mesmos segredos e um punhado de histórias novas para contar. Até lá, cuide-se. E não se esqueça de quem te espera aqui.
Seu irmão[telemensagem_whatsapp_box]