O vento trouxe um cheiro que me fechou a garganta
Querido irmão,
Hoje o vento trouxe um cheiro que me fechou a garganta. Era o mesmo que invadia a casa da vovó quando a gente subia na mangueira para roubar fruta verde. Você sempre caía primeiro, e eu ficava em cima do galho, rindo até chorar. Agora, quando fecho os olhos, ainda vejo seu sorriso cheio de terra e a cara de orgulho depois de cada travessura. Faz tanto tempo, mas parece que foi ontem que a gente dividia segredos debaixo do edredom, com medo de que alguém descobrisse nossas confissões de criança.
A casa está quieta demais sem suas histórias inventadas. Lembra quando você jurou que tinha visto um lobisomem no quintal? Fiquei uma semana dormindo com a luz acesa, até descobrir que era só o velho cachorro do vizinho. Mentiroso. Como eu queria ouvir mais uma dessas lorotas agora. Até as brigas por bobagem fazem falta – aquela vez que você comeu meu pedaço de bolo e fingiu que o gato tinha roubado. Eu sabia, mas deixei você ganhar, só para ver aquele olhar maroto.
O pior são as noites de temporal. Você sempre foi meu porto seguro quando o mundo parecia desabar. Segurava minha mão até eu adormecer, mesmo tendo medo também. Hoje, quando a chuva bate no telhado, eu me encolho no mesmo canto do sofá onde você me ensinou a ser corajosa. A coragem vai embora quando você está longe. Até o cheiro de café da manhã perdeu a graça sem alguém para roubar meu pão com manteiga quando eu viro as costas.
Prometa que um dia vamos sentar naquela velha varanda outra vez, você contando mentiras e eu fingindo que acredito. Até lá, vou guardando cada lembrança como se fossem migalhas de pão – medo de me perder no caminho de volta para você. O mundo ficou grande demais, irmão. E eu pequena demais para essa distância.
Sua irmã que espera[telemensagem_whatsapp_box]