Era um colo que parecia feito de paciência e algodão

Não consigo evitar que o vento traga de volta certos cheiros, certos sabores, certos momentos. O aroma doce de canela misturado ao café forte, aquele que só ela sabia preparar, ainda me invade como um fantasma gentil. Lembro-me das mãos calejadas, cheias de histórias e segredos, acariciando minha cabeça enquanto eu adormecia no sofá. Era um colo que parecia feito de paciência e algodão, macio o suficiente para embalar qualquer dor.

As tardes eram douradas, não pelo sol, mas pela presença que as preenchia. A cozinha virava um templo, e cada prato, uma oferenda de amor. Não havia receitas escritas, apenas gestos herdados, passados de geração em geração como um tesouro invisível. Até hoje, quando como algo que lembra aqueles sabores, sinto um nó na garganta. É como se um pedaço de mim estivesse preso naquele tempo, recusando-se a seguir em frente.

As histórias que contava antes de dormir não eram apenas contos, eram lições disfarçadas de magia. A voz suave, às vezes rouca, desenhava mundos onde eu era herói e ela, minha eterna aliada. Agora, quando fecho os olhos, tento reproduzir cada entonação, cada pausa dramática, mas a memória é traiçoeira. Aos poucos, os detalhes escapam, e só resta a dor agridoce de saber que nunca mais ouvirei aquelas palavras da fonte original.

O silêncio da casa sem ela é diferente. Não é um vazio, é uma ausência que ecoa. Até os objetos parecem guardar algo dela: o relógio que ainda marca a hora errada, a cadeira de balanço que range no mesmo ritmo de sempre. Fico parado, olhando para nada, esperando que o tempo me devolva pelo menos um segundo daquela calma. Mas o tempo é um ladrão, e eu, um menino crescendo, tentando segurar o que já virou pó.

Seu neto

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