As cicatrizes que aprendemos a curar juntas

Mãe querida, hoje as horas parecem ter se arrastado para perto do teu coração, como se cada minuto quisesse te beijar de novo com uma ternura antiga. Neste aniversário, o mundo parece inclinar-se para ouvir o teu sussurro invisível que me ensinou a respirar com o tempo. Cresci envolta pela tua calma, achei abrigo na tua voz que não levava juízo, apenas a certeza de que eu seria suficiente. Tuas mãos, que carregam as marcas de tantas jornadas, seguraram minhas primeiras quedas com uma paciência que parecia eterna. Ensinaram-me a ouvir o barulho do meu próprio medo e, ainda assim, a acreditar que há beleza no levantar depois do tombo. Hoje, eu falo baixo, para que o teu coração sinta a verdade de que não estás sozinha, mesmo quando o silêncio parece longe.

Recordo o teu riso que acende frigideiras de alegria naquelas manhãs de escola, quando o mundo parecia grande demais para meus passos ainda inseguros. Você, com a gentileza de quem conserva a memória do próprio colo, ensinou-me a dividir o peso das cargas até que coubéssemos em respiração simples. Houve dias em que a casa cheirava a pão recém-saído e café forte, e mesmo assim tua presença trazia perguntas que devolviam a mim mesma a coragem que eu não sabia nomear. Tuas palavras, longas como uma linha de costura, costuraram em mim uma confiança que não se vende nem se compra. Se eu me perco hoje, é porque o mapa do mundo é vasto, mas eu sempre encontro o trilho de tua vinda quando ele parece ausente, no rumor suave do teu colo que me fazia acreditar que tudo fica bem.

Não conto apenas as vitórias; eu conto também as cicatrizes que aprendemos a curar juntas. Se houver tempestades no futuro, guardo comigo a certeza de que tua presença continua a me guiar, mesmo quando a distância parece cruel. Estou grata por cada sacrifício invisível, por cada madrugada em que preferiste a minha paz à tua própria fadiga. Mãe, teu silêncio ensinou a ouvir o que não se diz; teu cuidado ensinou a transformar medo em cuidado; tua coragem ensinou que amar não precisa de palavras bonitas, apenas de constância. Quando eu tropeço, lembro do teu braço firme me erguer, e o mundo parece menos feroz, mais hospitaleiro. Quero levar contigo a leveza que aprendeste em casa, que não é desistência, mas a arte de escolher o que realmente importa.

Hoje eu te desejo o que cabe em uma vida inteira de gratidão: saúde para sorrir quando for preciso, serenidade para atravessar as mudanças, e a minha presença constante, mesmo quando a vida pretende nos levar por caminhos diferentes. Que cada novo amanhecer te encontre envolta em lembranças de nós duas, em pequenas coisas que brilhamos juntas — o cheiro de chuva no vidro, a textura de uma carta escrita à mão, o riso que ainda desorganiza o tempo quando me recordo de você. E se o dia estiver pesado, lembra que, ao lado de cada uma de minhas escolhas, está o teu ensinamento a me sustentar. Minha gratidão não cabe em palavras apenas, ela dança no peito, aquecendo cada gesto que eu puder oferecer para te fazer sentir tão querida quanto sempre quis sentir.

Sua Filha

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