A vida é como essa árvore — cresce devagar, mas enraíza fundo

**Lembranças que Moldaram Minha Alma**Sinto falta daquele cheiro de terra molhada que vinha das suas mãos depois da labuta diária. Você me ensinou que o suor honesto não tem vergonha de sujar a roupa, e que um homem se mede não pelo que acumula, mas pelo que planta. As tardes na varanda, ouvindo seus conselhos entre um gole de café amargo, eram minhas universidades particulares. Agora, quando o vento balança as folhas do velho pé de manga que plantamos juntos, fecho os olhos e jurou escutar sua voz sussurrando: “A vida é como essa árvore, filho — cresce devagar, mas enraíza fundo.”**O Silêncio que Ensina**Nunca foi de muitas palavras, mas cada gesto seu era uma enciclopédia. Lembro do seu jeito de afiar a faca antes de cortar o pão, meticuloso como um ourives, e como depois dividia o primeiro pedaço comigo. “O que é dado com amor nunca é pouco”, você dizia. Hoje, repito esses rituais sozinho, mas o pão parece sempre sem graça. Até o relógio de parede, aquele que consertou com palitos e paciência, parou de ticar no dia em que você se foi. Deixou-me um legado de quietude: às vezes, o mais profundo se aprende no mudo companheirismo entre duas xícaras vazias.**Lições nas Pequenas Coisas**Você transformava o ordinário em sagrado. Um pedaço de arame virava uma armadilha para passarinhos (que soltávamos depois), um galho seco se tornava uma vara de pescar, e até a chuva insistente tinha propósito: “É Deus regando a horta dos pobres”. Ri quando me viu usando seu chapéu de palha, três vezes maior que minha cabeça, e disse que um dia eu cresceria para preenchê-lo. Hoje, o chapéu me serve perfeitamente, mas sinto que ainda falta muito para ocupar o seu lugar.**O Adeus que Não Fizemos**A última vez que nos vimos, você estava sentado no banco de madeira, esculpindo um cavalinho para mim. Reclamei que estava atrasado e prometi voltar no dia seguinte. Mentira. O cavalo ficou sem crina, e eu sem despedida. Agora guardo a figura tosca na estante, meio acabada, como tudo que fica quando a morte chega de repente. Mas nas noites mais frias, quando a saudade aperta, juro sentir seu ombro encostando no meu, como antes, e então o mundo fica menos vazio.Com gratidão e respeito, Seu neto.

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